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segunda-feira, 19 de outubro de 2015

A Boneca Fantasma - Uma Análise Filosófica

No livro "A Boneca Fantasma", encontramos uma história vista através de dois ângulos diferentes. As duas visões são provindas de mentes doentias.
Ao olharmos o mundo sob o ponto de vista delas, somos convidados a encarar o diferente, aquilo que não se limita ao convencional. Geralmente, desejamos um mundo maravilhoso. No caso, as duas mentes, perturbadas por diversos fatores, enxergam o mundo predominantemente como um local de sofrimento e amargura. Algumas vezes, elas assumem um tom de tristeza e deboche frente aquilo que se vê.
Para entender as situações vividas por essas duas pessoas que nos contam a história, é fundamental o respeito à representação de seu mundo. É necessário entender que não existe uma única perspectiva de visão de realidade que possa ser apresentada como verdade absoluta.
Aprofundando-se agora na visão de Laura, é interessante também analisar o que ela pensa de si mesma. Nesse sentido, a personagem é rica em suas falas. Muitas vezes, o que a pessoa relata de si mesma não trata daquilo que ela realmente é. Há uma grande diferença entre o ser verdadeiro e aquilo que a pessoa enxerga em si mesma. Ao vermos Laura olhando para sua interioridade, somos desafiados a olhar para dentro de nós mesmos. Tal desafio é algo incômodo e muitas vezes chocante. Há pessoas que não querem se conhecer, ou não necessitam disso para viver bem com elas mesmas, há outras para quem o autoconhecimento é motivo de grande sofrimento, de problemas e angústias. Laura é o exemplo de alguém que necessita trabalhar sua autoestima. O seu sofrimento em relação à sua autoimagem faz com que suas ações sejam inconvenientes no âmbito de suas relações amorosas. Quanto a parte profissional, é interessante perceber que esse mesmo sofrimento é o que a torna um destaque em seu trabalho.
Em Laura, notamos que sua mente rica em abstrações necessita de fortes experiências sensoriais para a realização de seus desejos. Tais abstrações levam-na a se relacionar de uma forma estranha com seus brinquedos e em especial com uma determinada boneca. As ideias abstratas sobre um  triste mundo geram experiências sensoriais estranhas para aquelas pessoas que observam Laura. Vemos que o comportamento desse mulher assume diversas funções como amenizar seu sofrimento e carências, possibilitar um prazer doentio, etc. Algumas vezes, as abstrações de Laura também geram comportamentos sem função alguma, de forma que ela faz coisas sem sentido que nem ela mesma entende o porquê de realizá-las.
No discurso de Laura e do narrador, observamos uma forte carga de pré-juízos, ou seja, vemos verdades subjetivas "a priori", que interferem em seus relacionamentos. Algumas pessoas tem pré-juízos fracos que em nada atrapalham suas vidas. No caso de Laura e do narrador, tais pré-juízos são fortes e fazem com que eles fiquem cegos diante de determinadas situações. Especificamente no caso do narrador, os pré-juízos deixaram suas ações totalmente paralisadas.
Algo bem interessante para análise do livro é olhar a grande busca de Laura que é a concretização de seu amor. A busca se torna uma paixão dominante fazendo com que ela repita comportamentos, palavras e até mesmo frases completas de forma exagerada. Suas falas são carregadas de inúmeros termos agendados no intelecto que são as poucas palavras que fazem sentido à sua pessoa. Tais termos repetitivos também influenciam o discurso do narrador que se envolve com tais palavras e fica perdido com elas. Diante disso, surge um resultado que gera alguns discursos incompletos em meio a narrativa da história. Laura e o narrador apresentam lacunas em suas falas e nem percebem que isso acontece. 
Também notamos que as duas mentes doentias descrevem sua realidade utilizando muitos termos equívocos. Tal uso faz com que o leitor precise de uma maior concentração para entender aquilo que é expressado por tais mentes. Por esse motivo, torna-se evidente que o raciocínio provindo dessas mentes doentias não são bem estruturado e nem pode. O leitor sabendo que são mentes doentes deve compreender que não terá um discurso "certinho e perfeitinho" com palavrinhas "bonitinhas". 
O terror do livro é o mergulho numa mente perturbada. Mas mesmo se tratando de uma mente perturbada, acredito que ao descrevê-la poderia ter pegado um pouco mais pesado. Assumo a culpa de ter dado uma certa leveza com receio de que o absurdo de uma mente perturbada pudesse escandalizar as pessoas.
No quesito da espacialidade que é a localização geográfica do pensamento humano, notamos que Laura é predominante inversiva, ou seja, voltada para si mesma. Seus comportamentos parecem dizer ao contrário em algum momentos devido as suas relações com algumas pessoas, entretanto Laura não enxerga o outro realmente. A protagonista da história é uma mulher com o pensamento dirigido ao próprio corpo que busca situações de prazer e por isso assume os comportamentos inadequados conforme já foi mencionado. 
O narrador, referente a esse mesmo quesito de espacialidade, percebe que seu erro foi realizar uma recíproca de inversão inadequada. Para quem não sabe, recíproca de inversão ocorre quando a pessoa vai ao mundo existencial do outro. A recíproca de inversão é o que facilita o processo de entendimento de outra alma. No livro, notamos que esse narrador assume que não foi capaz de entender o universo mental de Laura e por isso comete um grande erro.
E falando em recíproca de inversão, o livro "A Boneca Fantasma" traz em suas entrelinhas um grande convite que é o de realizar uma recíproca de inversão em relação à Laura e ao narrador. Pessoas que assumirem comportamentos inversivos serão incapazes de entender a proposta da obra que é o contato com mentes fora do convencional. Talvez, as atitudes inversivas podem ser frutos de uma mente medrosa que é incapaz de assumir o desafio de entender o outro para depois voltar a si mesma e realizar um correto processo inversivo.
O livro "A Boneca Fantasma" também traz uma narrativa fortemente axiológica. Podemos observar quais são os valores que norteiam a vida das pessoas. Os personagens secundários são a evidência dessa característica da obra. Vemos uma atriz preocupada com as aparências a ponto de começar um namoro sem amor e exigir da protagonista que faça o mesmo. Notamos homens que têm atitudes fracas devido ao enorme valor que dão ao amor. Homens que não percebem que esse valor exagerado ao amor por suas mulheres deixaram-nos cegos e impediram-nos de realizar ações melhores refletidas. Uma sugestão interessante seria reunir leitores para debater os valores presentes no livro e descobrir quais são realmente importantes para a vida humana e quais seriam desnecessários.
Para uma melhor análise filosófica desse livro, o mais importante de tudo é observar a singularidade existencial da protagonista. Esse é outro dado bem interessante. A singularidade existencial trata das experiências difíceis de entender através do raciocínio, como por exemplo: crenças, religiosidade, contatos com seres sobrenaturais, etc. Uma atitude madura seria descrever, sem catalogar, julgar. Para alguns é um processo difícil se relacionar com alguém cuja uma de suas relações se dá com uma boneca. Mas antes de julgarmos, é necessário analisar até que ponto tal relacionamento é benéfico ou prejudicial. Explicando melhor, olhando a singularidade existencial de uma pessoa, cabe apenas o respeito, assim como o cuidado em observar quando essas "manifestações" geram desequilíbrio e sofrimento, orientando o ser humano, se preciso, no sentido de procurar um profissional competente para um diagnóstico - médico ou psicoterapeuta, dependendo da situação.
Concluindo essa postagem para evitar que ela fique mais longa do que já está, podemos afirmar que o livro "A Boneca Fantasma", embora curto, nos dá uma ampla gama para realizarmos uma análise filosófica. Lê-lo é caminhar num terreno pantanoso, pois não teremos a segurança de uma leitura clara e totalmente objetiva que são oferecidas em muitos livros. Nessa análise filosófica, ofereci alguns elementos sobre esse "pântano" para que meus leitores possam caminhar com ele com um pouco mais de segurança. As pessoas que tiverem dificuldades em captar esses dados ficarão perdidas num terreno obscuro e desconhecido. O livro foi feito para pessoas realmente inteligentes, amadurecidas e desprovidas de preconceitos. Friso que almas incapazes de fazer uma autêntica recíproca de inversão e depois voltar a um processo inversivo estarão impedidas de encontrar o sentido verdadeiro de meu livro. Nesse caso, só me resta lamentar a sua falta de habilidade intelectual e emocional.
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