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quarta-feira, 2 de março de 2016

Entrevista com Rubens Francisco Lucchetti, o Papa da Pulp Fiction

Rubens Francisco Lucchetti, o Papa da Pulp Fiction
Olá Pessoinhas do Mundo Literário!
Estou participando da Maratona Literária Nacionais 2016. Dentro das propostas dessa Maratona, escolhi para ler a obra intitulada de "O Fantasma de Tio William", de Rubens Francisco Lucchetti.
Para quem não sabe, ele é reconhecido como o Papa da Pulp Fiction. É considerado um dos mais calejados escritores brasileiros e escreve há cerca de meio século. Já escreveu mais de 1000 livros. Isso é espantoso!
Aproveitando que a Maratona visa prestigiar os Escritores Nacionais pedi ao Lucchetti uma entrevista e ele aceitou. Sinto-me muito feliz por estar entrevistando um dos melhores escritores brasileiros. Vamos conferir suas respostas?

Entrevista com Rubens Francisco Lucchetti
- Filósofo dos Livros: Como surgiu sua paixão pela leitura e o desejo de escrever livros?
- Rubens Francisco Lucchetti: Meu interesse pela escrita surgiu praticamente por causa das imagens. Meu pai costumava comprar a revista O Tico-Tico, e eu ficava olhando os desenhos. E ficava desesperado para saber o que estava escrito, já que não sabia ler direito. Recordo também que, certa vez, vi, em rotogravura e em cores, uma página dominical da história em quadrinhos Pafúncio & Marocas, do George McManus, publicada no jornal O Estado de S. Paulo. A história mostrava o Pafúncio roubando um avião e aprontando as maiores confusões. Os desenhos eram tão engraçados, e fiquei desesperado para saber o que estava escrito nos balões. Então, meu pai leu para mim. Isso me obrigou a aprender a ler rapidamente. Não sabia somar um mais um; entretanto, aprendi a ler e, consequentemente, a escrever. Portanto, foi por meio das histórias em dos quadrinhos que surgiu meu interesse pela escrita.

- Filósofo dos Livros: Quando começou a escrever livros de terror, o que seus amigos e familiares acharam?
Amei essa leitura!!!
- Rubens Francisco Lucchetti: Nunca nenhum familiar se interessou pelo meu trabalho. Eles sempre me ignoraram. Também não me recordo de amigo algum que teve interesse em ler ou comentar sobre o que eu escrevo. Aqui, incluo roteiros de quadrinhos e de filmes. Na verdade, tive e tenho raros amigos. Entretanto, agora, que tenho uma página no facebook, estou conhecendo e encontrando uma legião de leitores e admiradores. Então, aos 86 anos de idade, é que estou encontrando pessoas que pensam igual a mim, incluindo você, meu caro Fernando Nery. Eu nem podia imaginar essa quantidade de pessoas que conhecem e admiram o meu trabalho. Isso tudo veio dar um novo sentido à minha vida. Renovou o meu ânimo.

- Filósofo dos Livros: Quais são suas fontes de inspiração? Existe algum personagem inspirado numa pessoa real?
- Rubens Francisco Lucchetti: Normalmente, inspiro-me muito em ilustrações e desenhos. Eles terminam sugerindo-me ideias. Inúmeras de minhas histórias nasceram assim, após eu ter contemplado demoradamente uma gravura. É como se eu ficasse passeando dentro da ilustração. Quanto à segunda parte de sua pergunta... Eu tenho um detetive criado no começo de minha fase adulta, nos anos 1950. O nome dele é Reginaldo Varela. Para criá-lo, tomei como modelo o sócio que eu tinha na minha loja de autopeças. O Reginaldo Varela é do Gabinete de Investigações de São Paulo e protagoniza uma série de contos (eles são passados na década de 1940) que estão reunidos num livro intitulado Matéria de Interesse Humano. Livro esse que talvez seja publicado pela Editorial Corvo, a mesma que está lançando a Coleção R. F. Lucchetti.

- Filósofo dos Livros: O que atrapalha o processo de criação de um autor?
- Rubens Francisco Lucchetti: É a falta de inspiração. É a coisa mais terrível que pode existir. Quando isso acontece, vai dando um desespero, uma angústia. O que só piora a falta de inspiração. Eu aprendi o seguinte: quando a inspiração não vem, é melhor guardar tudo, guardar toda a papelada, e ir ler qualquer coisa. Daí, a inspiração vem normalmente.

Rubens e a sua bela máquina de escrever
- Filósofo dos Livros: Você tem algum ritual para começar a escrever? Costuma se isolar das pessoas?
- Rubens Francisco Lucchetti: Não tenho nenhum ritual. Apenas gosto de escrever escutando o rádio. Não consigo escrever no silêncio. Mas, na verdade, não estou ouvindo nada. Só passo a prestar atenção ao rádio, quando a música me interessa. Normalmente, o trabalho de um escritor já é solitário. Ele já está isolado, por natureza.

- Filósofo dos Livros: Inspiração é algo que acontece naturalmente ou o escritor tem o poder de criá-la?
- Rubens Francisco Lucchetti: Às vezes, sim. Ela acontece do nada. Agora, o que é imprescindível: sempre que vou escrever uma história, eu tenho de ter o começo e o fim dela. Quem me ensinou isso foi um escritor francês, Maurice Leblanc, o criador do ladrão elegante Arsène Lupin, que hoje está totalmente esquecido aqui no Brasil.

- Filósofo dos Livros: Você tem algum escritor que te sirva de modelo?
- Rubens Francisco Lucchetti: Devido aos principais gêneros a que me dedico, o Horror e o Mistério, os autores que me servem de modelo são: Edgar Allan Poe, sir Arthur Conan Doyle e Émile Gaboriau (seu personagem, monsieur Lecoq inspirou Conan Doyle a criar Sherlock Holmes).

- Filósofo dos Livros: O que te dá mais prazer em escrever, livros ou roteiros de filmes?
- Rubens Francisco Lucchetti: Sem dúvida alguma, livros. Porque o que você escreve sai impresso. Já um roteiro de filme tem de agradar várias pessoas (produtor, diretor etc.) e você é obrigado a reescrevê-lo várias vezes. No final, você nem reconhece mais nada da ideia inicial.

- Filósofo dos Livros: Quando você escreve o roteiro de um filme, fica imaginando qual artista seria ideal para representar cada personagem?
- Rubens Francisco Lucchetti: Isso só aconteceu comigo, quando trabalhei com o Ivan Cardoso. Eu já sabia, de antemão, quais os atores que seriam escalados para os filmes. Então, eu tinha de escrever os papéis, já imaginando seus intérpretes. Seu nome até aparece nos créditos do filme, Isso facilita demais o trabalho. Principalmente, quando se trata de artistas que você conhece.

Roteiro Espetacular!!!
- Filósofo dos Livros: Vamos fazer uma pequena brincadeira. Se “O Escorpião Escarlate” fosse produzido hoje com seu roteiro original e você pudesse escolher os artistas para cada papel, quais seriam seus escolhidos?
- Rubens Francisco Lucchetti: Eu não mudaria ninguém. Só criaria um papel melhor para o Colé Santana, que está desperdiçado no filme. E colocaria o Carlos Imperial como diretor da rádio. Na verdade, o Carlos Imperial já estava escalado para esse papel. Não sei porque o Ivan mudou de ator. E também não conheço muito os atuais artistas brasileiros.

 - Filósofo dos Livros: Você conhece escritores atuais que possuem obras maravilhosas, mas que não são reconhecidos por falta de divulgação?
- Rubens Francisco Lucchetti: Neste último ano e meio, tenho recebido uma grande quantidade de livros, alguns já editados há algum tempo. E muitos deles são excelentes. Mas, infelizmente, não chegaram e não chegam ao público, porque não são distribuídos. Há diversos bons autores de histórias de Horror e Fantasia em nosso país. Porém, seus livros não são comercializados e nem chegam a ser conhecidos dos aficionados do gênero.

 - Filósofo dos Livros: No Brasil, é possível que um escritor viva a partir de seus livros ou ele é forçado a ter outras fontes de rendas paralelas?
- Rubens Francisco Lucchetti: No Brasil, tirando alguns medalhões, é impossível viver apenas daquilo que você escreve, viver de direitos autorais. Você tem de ter outras fontes de renda.

- Filósofo dos Livros: As pessoas optam por livros de terror para terem a sensação de medo. Com tantos anos escrevendo terror, você experimenta a sensação de medo ao ler ou escrever livros desse gênero, ou tudo é uma imensa brincadeira com a qual você se diverte?
- Rubens Francisco Lucchetti: Tudo é uma grande diversão. Do que eu tenho medo mesmo é da realidade. Essa é apavorante! Você nunca sabe o que vai encontrar, ao sair de casa. Por isso, saio muito pouco. Hoje, posso me dar a esse luxo. Fico até apavorado, quando batem à minha porta. Você nunca sabe quem está do outro lado. E não são fantasmas ou vampiros.

- Filósofo dos Livros: Quando você escreve um livro de terror, você fica imaginando a reação das pessoas? Pensa na sensação que elas terão? Visualiza cenas com elas apavoradas?
- Rubens Francisco Lucchetti: Não. Eu procuro mais brincar com os nervos dos meus leitores do que apavorá-los.

- Filósofo dos Livros: Que elementos não podem faltar para uma boa história de terror?
- Rubens Francisco Lucchetti: Antes de tudo, você tem de surpreender o leitor. Como é um gênero em que você basicamente trabalha o tempo todo com clichês, tem de criar algo novo a partir do velho (não é nada fácil isso) e surpreender o leitor. Você não pode deixar o leitor adivinhar o que vem a seguir. Se tal acontecer, será o seu fracasso.

- Filósofo dos Livros: Ao ver seus livros sendo republicados, qual é o seu sentimento?
- Rubens Francisco Lucchetti: Ver meus livros sendo publicados ou republicados causa-me um sentimento que não sei descrever. Vai além do simples entusiasmo.

- Filósofo dos Livros: Se você pudesse voltar ao passado para encontrar o Rubens Francisco Lucchetti com 20 anos de idade, que conselhos você daria para ele?
- Rubens Francisco Lucchetti: Eu o aconselharia a não escrever nada para o cinema. Eu iria me dedicar somente aos livros e aos roteiros de histórias em quadrinhos.

- Filósofo dos Livros: A respeito de seus livros, o que vem de novidade?
- Rubens Francisco Lucchetti: Vou falar dois dos próximos livros da Coleção R. F. Lucchetti: Os Amantes da Sra. Powers, que é um romance Noir e tem como figura principal uma femme fatale (o que ela faz é simplesmente estarrecedor. Posso dizer que as chamas do Inferno moram em seus olhos); e A Maldição de Abbeyville – O Dia de Lavinia, que é uma história de feitiçaria. Outro próximo lançamento, mas pela Editora Laços, é As Sete Vampiras, um livro com o roteiro (a versão definitiva) do filme de mesmo nome dirigido pelo Ivan Cardoso.

- Filósofo dos Livros: Vampiros, zumbis, lobisomens são os monstros da ficção. Na via real, quem são os monstros que realmente assustam os seres humanos? 
- Rubens Francisco Lucchetti: São aqueles que roubam o dinheiro público. Esses são uns verdadeiros monstros, que deveriam queimar eternamente no Inferno.

- Filósofo dos Livros: Agora, irei fazer um ping pong com você. Coloco uma palavra e do lado você responde a primeira palavra que surgir em sua mente.
* Amor: Deus 
* Tristeza: A vida 
* Família: Tudo 
* Política: O Nada 
* Livro: Essencial 
* Sexo: Vida 
* Terror: Cotidiano 
* Sucesso: Quimera

- Filósofo dos Livros: Para finalizar nossa entrevista, deixe uma mensagem para todos os seus fãs.
- Rubens Francisco Lucchetti: Deixo o meu abraço a todos aqueles que apreciam as histórias de Mistério e Horror.

- Filósofo dos Livros: Muito obrigado pela entrevista.
- Rubens Francisco Lucchetti: Eu que agradeço esta oportunidade que você me deu para me dirigir a minhas amigas e meus amigos. No meu trabalho solitário de ficcionista, não me sinto mais sozinho, como antes. Sei que tenho vocês. Obrigado a todos.

Então? Gostaram da entrevista? Eu adorei!!! Deixe sua opinião nos comentários e até nosso próximo encontro.
Conheça a Comunidade R. F. Lucchetti (Só para fãs), clicando aqui.
Abraços

6 comentários:

  1. Esse cara é um gênio, simples, rs. SOU Fã de Lucchetti.
    Parabéns pela entrevista, belíssima!
    Valeu!

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  2. Adorei em conhecer esse belo escritor,que ele continue a escrever,e otima entrevista, vou aprender com você viu?

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  3. Sensacional! Há tempos eu não lia uma entrevista que valesse tanto. Livros são tudo, parabéns colega, amei!

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    Respostas
    1. Obrigado, Lúcia! O Mestre arrasa nas respostas!
      Beijos!

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