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terça-feira, 16 de agosto de 2016

Chá de Cogumelo, de Carlos Adriano Estevez

Olá, Galera!!!
Hoje, o parceiro Carlos Adriano Estevez — autor dos livros "Exilado Vol. 1 e 2 — nos presenteia com um de seus contos. Deixamos claro que não somos a favor do uso de nenhuma droga. A publicação ocorre pelo humor do texto.
Era um sábado à tarde. Eu e minha namorada estávamos estudando Resistência dos Materiais. Espalhados pela mesa, estavam cadernos, folhas xerocadas, livros, lápis, borrachas e réguas, e minha bunda já estava doendo. Entenda: eu precisava passar nessa prova.
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Quando se está no oitavo ano de um curso de cinco, você precisa passar ou é jubilado. Eu já tinha bombado quatro vezes nessa matéria, mas dessa vez eu iria passar.
Era isso ou voltar para a casa dos meus pais como um perdedor e ter que prestar vestibular de novo.
Eu ia passar.
Eu ficava repetindo isso para mim mesmo como se pudesse curar o fato de não conseguir resolver aquela merda daquele problema que eu não conseguia entender.
Aquela placa de aço maldita, pendurada por roldanas e cordas nas extremidades, suportaria a porra do momento fletor?
Eu tinha até segunda-feira, às 8h para saber responder isso.
Eu estava com as palmas das mãos grudadas no rosto e respirando ofegante, tentando manter a calma, quando meus dois companheiros de república chegaram. Thiago, que tinha voltado de Amsterdã uma semana antes, estava com uma sacola do Extra, que foi colocada em cima da mesa e aí eu pude ver o que havia dentro.
– Já vi tudo. Já sei o que vai acontecer. Você é um irresponsável. Vai se foder.
Essa foi a reação da minha namorada. Eu disse para ela que não era nada disso. Eu ia passar. Tinha certeza. Ela me xingou um monte, entrou no carro e foi embora, ainda me xingando. Carlos falou:
– O que estamos esperando?
Eu levantei da mesa e senti minhas nádegas formigando. Com dificuldade, andei junto deles até a cozinha. Pegamos uma leiteira comprida e preparamos.
– Galera, acho que é melhor deixar para outro dia. Eu preciso estudar.
Thiago me encarou com ar de reprovação. Discutimos se iríamos guardar congelado. Eles argumentaram dizendo que na semana seguinte eu já não estaria mais lá. Era verdade, eu tinha viagem marcada de volta para casa e não iria morar mais ali com eles. Eu tentei manter a razão e deixar claro que nada me impediria de visitá-los.
– Até lá já vai ter estragado, Fabiano – disse Carlos.
Eu cocei a cabeça e suspirei. Eles estavam certos.
– Ok. E como é que a gente vai consumir isso?
Thiago levantou a possibilidade de fazermos picolés. Fizemos uma análise de riscos rápida e Carlos questionou que a mudança de estado físico da iguaria poderia afetar o princípio ativo. Eu argumentei que estado físico não se aplica à solução, é uma propriedade de substâncias puras. Solicitaram que eu calasse a boca. Thiago deu a resposta final.
­– Porra! Vocês não estão percebendo que o que nós temos diante de nós são cogumelos da Floresta de Brocelianda que eu mesmo colhi das raízes da árvore que nasceu sobre o túmulo de um cavaleiro da Távola Redonda? A gente nunca mais vai ter chance de tomar um barato tão louco que nem esse!
Foi decidido então que era melhor não arriscar e consumir o produto de imediato. Pegamos quatro copos de requeijão e enchemos. Bebemos. Ainda sobrou metade. Estávamos nos sentindo de boa, então decidimos consumir o resto. Mais um copo de requeijão cheio para cada um.
Estava de boa, realmente. Ligamos a TV e na Sessão da Tarde estava passando uma comédia. Estávamos rindo à beça. De repente, ao olhar para o Carlos, percebi que as pontas das orelhas dele, assim como o nariz, haviam crescido substancialmente. As pontas brilhavam como sabres de luz. Eu o alertei sobre o fato e ele observou:
– Caralho, Fabiano, você virou um duende!
Senti que precisava tirar água dos joelhos e me levantei. Percebi que as pontas dos meus dedos também haviam crescido. O chão era quadriculado como um tabuleiro de xadrez e minhas pernas transpassavam o piso até a altura do joelho. Era difícil a locomoção, pois a cada passo eu precisava penetrar o chão.
Cheguei ao banheiro e senti uma brisa de felicidade ao perceber que meu pinto media cerca de uns 80 cm.
– Isso não é real, é só o cogumelo mexendo com a minha visão das coisas.
Meu pinto parecia estar se afogando na água da privada, então, para ter certeza de que aquilo tudo não passava de ilusão, dei uma balangada.
Que criou um mini tsunami.
Assustado, tentei recolher meu pinto-sabre-de-luz para dentro da bermuda, mas temi decepá-lo ao fechar a braguilha. Eu já não estava mais de boa, mas ainda acreditava que tudo aquilo era ilusão. Eu só precisava chegar à minha cama, deitar e fechar os olhos, que aquilo ia passar. Me virei em direção à porta, mas ela já não estava mais ali. No lugar, havia apenas uma enorme placa de aço retangular, sem maçaneta.
Eu balbuciei: “Preciso sair daqui”.
E a placa tremeu.
Com medo, subi na privada, e a placa caiu, esmagando parte da privada e quase decepando os meus pés. Eu caí sobre a placa de aço, tão lisa e pura que parecia não ser feita de átomos, mas de algo uno e indivisível.
A placa, então, falou comigo, mas não através de palavras. Pelo menos não dessas palavras que a gente conhece, formadas por letras do alfabeto, mas através de um som grave e contínuo. E eu sabia que aquele som era uma pergunta: “A placa vai quebrar?”
“Eu não sei!” – eu berrava. Uma lágrima caiu sobre a placa, mas a pequena poça salgada que se formou demorou apenas uma fração de segundo para desaparecer, tornando-se una àquela estrutura. Eu me senti sufocado e, como se estivesse no meio de uma crise de asma, sorvi ar, fazendo um barulho que mais parecia um apito ao encher meus pulmões.
Tudo ficou preto e quando eu voltei a enxergar, eu era a placa. Do chão, eu enxergava o teto, de onde pendiam polias, que giraram ao arremessar seus ganchos presos a cordas na minha direção.
O primeiro gancho atravessou meu tornozelo esquerdo, e eu senti pedaço de carne que se rasgou.
Cada pedaço de osso que quebrou.
O segundo gancho atravessou meu pé direito e eu berrei, tentando colocar para fora a dor que invadia cada milímetro cúbico da minha existência.
O terceiro gancho atravessou meu crânio na altura da testa e minha visão foi inundada pelo vermelho do sangue que se esvaía do meu cérebro.
Meu corpo estava rígido como uma placa de aço e as roldanas voltaram a girar, me conduzindo em direção ao teto.
Eu senti algo perfurar a base da minha coluna e pude vislumbrar mais um gancho, que atravessou meu ventre e surgiu junto com sangue que jorrava, manchando o teto.
O gancho começou a me puxar para baixo e eu senti cada Newton de cada uma das forças, e entendi que era aquilo era algo que eu não conseguiria suportar.
E então fui partido ao meio.


A próxima lembrança que eu tenho é do Thiago me acordando. Eu estava caído no banheiro e a privada estava destruída.
– Cara, acorda, já é segunda.
Senti meu corpo tremer inteiro num calafrio.
– E que horas são?
– 7h30.
Eu me levantei num pulo e fui para o campus.


Hoje, sou engenheiro de produção e só prestei vestibular uma vez em toda minha vida.
Sou casado e pai de dois filhos. Mas sempre que eu me lembro do que aconteceu naquele sábado, sinto uma pontada de dor na base da coluna que me faz chorar e gritar pela minha mãe.

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