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sexta-feira, 5 de agosto de 2016

[CONTO] O DEFUNTO

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Olá macabros, tudo bem com vocês?
Na Sexta-feira do Terror dessa semana trago-vos um conto bem cabuloso. Espero que gostem e não se esqueçam de deixar seu comentário no final desse post...



O ruído de algo arranhando voltou. O médico legista Pedro Guiar sentiu seu corpo se retrair outra vez. Situação esquisita, aquela. Tantos anos lidando com pessoas mortas e pela primeira vez parecia estar ouvindo coisas.

Colocou o bisturi sobre a mesa, encarou o corpo da jovem a sua frente, e decidiu ir olhar o que estava acontecendo.

Já passava das três da manhã. Os olhos do médico piscaram três vezes ao entrarem em contato com a luz forte do corredor. Concentrou-se no ruído que agora se tornara mais audível, e seguiu em frente.

Quando entrou na sala das gavetas sentiu de mediato que algo estava muito errado ali. As luzes, que deviam permanecer acessas vinte quatros horas, estavam apagadas. Por um instante, o médico não conseguiu ver nada. Tudo estava embaçado, turvo; as formas pareciam borradas e distantes. Em seguida, algo se ergueu ao lado, e Pedro conteve um grito.

Era um homem. Estava pelado e molhado, e em seu tórax possuía um corte cirúrgico. Por um instante, Pedro achou que estivesse tendo alucinações, todos aqueles plantões seguidos pareciam afinal está começando a afetá-lo. Mas quando o homem tocou em seu braço e soltou um gemido pedindo socorro, ele soube: aquilo era real.

***

– Calma, não se preocupe, vai dar tudo certo.

Pedro colocou o homem de meia idade sobre a mesa metálica ao lado da jovem de cabelos azuis e foi até o armário no canto. Não fazia a mínima ideia do que fazer, havia arrancado todos os órgãos daquele homem mais cedo, como ele poderia estar vivo?

Procurou por algum sedativo, mas tal coisa seria incomum em um necrotério. Vasculhou todos os frascos até que encontrou um tubo de clorofórmio.

– Vai ter que servir – disse para si mesmo.

Não esperava de forma alguma que ao se virar se depararia com o homem de pé segurando uma barra de ferro, e muito menos que ele o atingiria logo em seguida.

***

Quando acordou, Pedro sentiu de imediato a dor em sua têmpora. Uma voz ecoou no fundo da sua mente. A voz de um homem exaltado exigindo saber o seu nome.

O médico tentou se levantar, mas havia sido amarrado a mesa. “O Defunto” permanecia de pé ao lado, lhe encarando com um olhar gélido que o fez se arrepiar. Qual é o seu nome? Indagou novamente.

– Vai se ferrar – respondeu o médico.

O homem foi até a mesa ao lado e se inclinou sobre a moça deitada nela, por um instante Pedro pensou que ele estivesse beijando-a, quando na verdade ele estava apenas pegando o bisturi do outro lado. Voltou e colocou o objeto gelado sobre o tórax de Pedro. 

Seu nome.

– Está escrito no meu crachá seu idiota, por acaso não sabe ler?

O homem não respondeu, talvez não soubesse. Pressionou o objeto sobre o peito do médico e começou a cortar.

– Calma, calma. Eu conto.

O homem parou e o encarou, esperando a resposta.

– Calma, escuta, droga, o que você quer?

Apenas o seu nome.

– Ele é todo seu então – respondeu. – Pedro, Pedro Guiar.

O olhar do homem se transformou em satisfação, o ruído que Pedro ouvira outrora voltou ainda mais intenso, dessa vez, estava dentro da sua cabeça.

Muito obrigado, disse o homem, e possuiu o seu corpo.

3 comentários:

  1. Me lembrou MUITO o Estranho Caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde, não sei se conhece ou se inspirou-se nessa história. Mas assim como a citada em cima, a sua é incrível, curta, com um suspense leve que chega a agoniar, e um final surpreendente. Como sempre espero de ti Brendo, MAIS UM trabalho incrível cheio de perfeição e paixão. Espero que você consiga o reconhecimento que merece o mais rápido possível.

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    1. Obrigado pelo seu comentário João, é um prazer saber que gostou do meu trabalho, pois assim como todos tenho tentando alcançar os meus sonhos!

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  2. Mais uma vez, você traz um conto fabuloso. Parabéns!!!

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