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quinta-feira, 20 de abril de 2017

Do tempo do álbum de fotografias

Olá, Galera!
Eu sou do tempo do Álbum de fotografias. Em meu tempo, não havia tanta facilidade para tirar fotos como nos dias de hoje. Nós utilizávamos uma máquina com filme de 12, 24 ou 36 poses. Quando acabava o número de poses, tínhamos que colocar outro filme. Depois disso, os filmes eram levados em uma loja para revelar. Sofríamos com a espera.
As coisas de meu tempo não eram como as de hoje. Na atualidade, vemos a foto na hora e podemos selecioná-las. Em meu tempo, as fotos corriam o risco até de queimar o filme. Às vezes, tirávamos 36 fotos e só apareciam 30, pois as outras queimaram. Tempos difíceis para quem amava registrar sua vida por meio de fotos.
Depois, costumávamos reunir as fotos em um álbum de fotografias. Essas fotos remetiam a tempos felizes. Compartilhávamos com os amigos. Eles viam nossas fotos e sorriam. As melhores recordações da vida ficavam ali gravadas. Em meu tempo, também passávamos por momentos tristes, porém isso não era fotografado. As pessoas de meu tempo entendiam que mesmo tendo fotos felizes, passávamos por momentos de tristeza. Ninguém precisava tirar foto chorando ou sofrendo para que os outros soubessem disso.
O tempo passou e a máquina com filme foi substituída pela digital, pelo celular e pelo tablet. As redes sociais se transformaram em nosso álbum de fotografias. Conseguimos um maior alcance, porém não entendo a mentalidade do povo atual. Da mesma forma em que eu registrava os momentos felizes nos tempos anteriores, passei a registrar as alegrias dos dias de hoje. Não tenho o hábito de colocar fotos tristes. Não foi assim que fui criado.
Todavia, vejo pessoas reclamando das fotos felizes. Dizem que expomos uma falsa felicidade e isso pode prejudicar outras pessoas que estejam sofrendo. Discordo dessa linha de pensamento. Em minha época, pessoas sofriam também. Nem por isso, registrávamos fotos de momentos infelizes. Como mencionei antes, as pessoas sabiam que o registro de fotos alegres não significava a ausência de sofrimento.
A geração atual que pensa que não podemos apenas registrar momentos felizes parece não entender isso. Certa vez, fiquei doente. Compartilhei com amigos mais próximos o meu sofrimento. Entretanto, comecei a postar fotos com boa aparência. Lavei meu rosto, dei um jeito para parecer mais corado e tirei fotos sorrindo. Nenhuma foto revelou a minha dor. Na mesma hora, meus amigos viram e disseram que eu mentia sobre minha doença. Reclamaram dizendo que as fotos revelavam uma mentira. Que eu dizia estar doente apenas para chamar a atenção.
Eu não queria chamar a atenção de ninguém. Por isso, compartilhei minha dor apenas com amigos próximos. Coloquei as fotos alegres para não me entregar ao sofrimento. Não queria reforçar minha angústia diante da doença, mas eles não entenderam isso. Muitos deles são de minha idade e deveriam se lembrar que em álbum de fotografias só colocamos fotos da felicidade, de boas recordações. Eu nunca registraria a minha cara de dor. Todavia fui incompreendido. O que eles queriam? Que eu me expusesse como um coitado?
Posso estar doente e acabado, mas ninguém vai ver uma foto triste minha nas redes sociais. Sempre colocarei fotos de felicidade. Cabe ao ser humano ter a percepção de que o registro de momentos felizes não significa que eu viva feliz durante às 24 horas do dia. É difícil entender isso?
Abraços.

2 comentários:

  1. Texto perfeito!
    Fotos não revelam caráter nem o que habita no mais profundo de nosso ser.
    A gente na maioria das vezes prefere sim, tirar fotos sorrindo e de momentos bacanas, alegres, festivos, mas isso não significa que não estamos passando por um inferno na terra.
    Acho erradíssimo quem nos julga por uma foto. É uma foto. Um reflexo de nosso físico, não de nossa alma.
    Parabéns pelas sábias palavras.
    abraços

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