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domingo, 7 de maio de 2017

Identifique o Narrador da Obra


Olá, Galera Literária!!!
Hoje, venho falar de um assunto que parece óbvio, mas que poucas pessoas dão a devida atenção: Identificar quem é o Narrador de um Livro.
Quando falo em identificar o Narrador, não me refiro apenas em dizer o seu nome ou quem ele é. Identificar o Narrador significa descobrir informações de sua personalidade para perceber se a narrativa é coerente. Para resenhistas, identificar o narrador é fundamental a fim de evitar textos que façam exigências bobas diante de um livro.
Vejo muitos blogueiros e booktubers que fazem péssimas resenhas por não identificarem o narrador e não entenderem quem ele é no livro. Para aclarar o que desejo dizer, começarei a exemplificar.
Muitas pessoas já sabem que fui seminarista católico. Naquela época, trabalhei em lugares pobres. Algumas mulheres sofridas me procuravam para desabafar. Em suas histórias, ouvia falar de seus sofrimentos relativos a abusos sexuais. As narrativas feitas por elas eram tristes, não tinham nada de agradável. Algumas vezes, o sofrimento bloqueava suas mentes e as situações apareciam cheias de lacunas. Partes de seus discursos não eram claros por causas de buracos ou até mesmo uma sequência lógica.
Vejam que eu escutei mulheres reais e sofridas cujos discursos apresentavam falhas na narração. Elas tinham necessidade do desabafo, mas não conseguiam falar tudo de forma clara.
Agora, vamos imaginar um livro que fala sobre mulheres que sofreram abusos sexuais. O autor cria personagens femininas e realiza a narração em primeira pessoa. Eu identifico que o narrador é uma dessas mulheres que se encontram perturbadas psicologicamente. Se o texto é narrado por uma mulher nesse estado, é evidente que não cabe criticar o livro por apresentar um discurso ilógico e cheio de lacunas. Eu sei que uma pessoa sofrida tem dificuldade em falar de coisas suas com clareza. A violência que se fez presente em sua vida impede uma narração certinha conforme os moldes tradicionais. Nesse caso, o que parece defeito é uma grande qualidade.
O autor dentro de sua obra se torna também ator. Ele atua por meio das palavras. Ao criar o seu narrador, deve senti-lo e expressá-lo de tal maneira que as pessoas notem veracidade. Sei que os livros são obras de ficção, mas toda ficção tem que ter o pé mergulhado em algo verossímil para fazer sentido.
Se um texto é narrado por uma criança pequena, devemos imaginar como ela se expressaria ao contar sua história. Não podemos exigir de um livro narrado por uma criança que haja um linguajar adulto. Evidente que pode haver exceções quando o autor utilizar algum fato para demonstrar que se trata de uma criança precoce. Por esse motivo, devemos estar atento à personalidade do narrador em primeira pessoa e perceber se o estilo narrativo bate com o que é proposto.
Certa vez, li uma resenha onde um blogueiro reclamava que a obra apresentava um estilo cheio de fragmentos desconexos. O narrador não conseguia desenvolver uma estrutura linear e muitos fatos ficavam incompreensíveis. A resenha metia o pau na obra. Só que o resenhista não percebeu que o narrador daquele livro era uma louco que habitava em um hospício com grandes transtornos psiquiátricos. O autor reproduziu o discurso da loucura em seu livro. Se o autor apresentasse um discurso bem estruturado por parte desse narrador louco, a obra não ficaria tão interessante. Infelizmente, o blogueiro exigia algo que uma pessoa louca não poderia oferecer.
Lendo algumas resenhas, fico cansado em ver algumas exigências absurdas porque não identificaram corretamente quem é o narrador do livro e não souberam interpretar sua personalidade. Se o texto for narrado por um homem frio, a narração deve carecer de sentimentos. Se o texto tiver a narração de uma pessoa sem escolaridade, é evidente que a narração deve apresentar falhas de discordância para evidenciar que a pessoa não estudou e não conhece as regras gramaticais. Às vezes, o que parece erro e defeito pode ser a grande qualidade de um livro, pois o autor soube criar um narrador condizente com a história.
E vocês, meu amigos? Concordam com o que falei? Lembrem-se de que um texto narrado por jovens adolescentes podem apresentar gírias e falhas de concordância para mergulhamos na personalidade deles. Às vezes, a expressão "sentar na mesa" deve ser aceita quando o narrador é uma pessoa que desconhece a forma correta de se expressar. Evitem sair por aí reclamando do uso de expressões como "sentar na mesa", "bater na porta" e "falar no telefone". Antes de reclamar, identifique o narrador da obra.
Abraços.

8 comentários:

  1. Muito interessante seu texto. Penso que o escritor quando se propõe a escrever uma trama onde ele não é o narrador e sim um outro personagem, ele deve mergulhar nas características desse personagem e só então deixar a escrita fluir. Penso, também, que João Guimarães Rosa é um excelente exemplo ao contar suas histórias. Parabéns pelo texto instrutivo!

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    1. Muito obrigado pela sua opinião, Ademilson.
      Preciso ler João Guimarães Rosa.
      Abraços!!!

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  2. Concordo plenamente. Temos que fazer um exercício de relativização da leitura da obra de acordo com o narrador.
    O estilo de narração pode até mesmo dar informações ao leitor que os personagens não têm.

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    1. Muito obrigado, Saulo.
      Sinto que as pessoas não percebem que em determinados livros o autor não conta apenas a história, mas que ele nos conta a forma que o personagem relata os acontecimentos. Infelizmente, a maioria das pessoas não chegou a esse grau de compreensão.

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  3. Oi, Fernando! Primeiramente parabéns pelo assunto. Devo dizer que, concordo plenamente no que você escreveu e, digo mais, muitas pessoas que se dizem blogueiros(a) não sabem analisar de forma correta uma obra, existem muitas maneiras de analisar uma obra e, uma delas é identificar o narrador do livro. Infelizmente muitas pessoas não compreendem, e acabam por somente enxergar os defeitos de um livro. O que eu acho incrível é que, para criticar todos sabem fazê-lo,agora enxergar a obra de forma global aí muitos deixam a desejar. Abração!

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    1. Verdade, meu amigo. E o povo critica sem fundamento.

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  4. Concordo plenamente!!!!
    É um trabalho árduo para o autor, mas vale a pena trabalhar bem o narrador.
    Tem alguns livros que considero preferidos justamente por isso, pelo narrador ser tão característico e cheio de personalidade.
    Abraços

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