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segunda-feira, 5 de junho de 2017

Os ossos de meu pai

A imagem é meramente ilustrativa

No dia 17 de maio, completou 5 anos que meu pai faleceu. Hoje, minha mãe, meu irmão e eu fomos retirar os seus ossos. Imaginava encontrar um caixão perfeito no qual seria aberto e veria os ossos dele com a roupa intacta. Acho que essa é uma imagem de filme.
Mas até o caixão se deteriorou. Havia uma espécie de plástico envolvendo o esqueleto. O coveiro puxou e fui vendo meu pai se desmontando. Suas roupas estavam podres. O maxilar se soltou do cranio e pude ver os poucos dentes que restavam. Aliás, fiquei na dúvida se aquilo eram dentes ou era a ponte que ele usava. Vi uma barata caminhando perto do buraco onde ficava um olho. Imaginava vermes ao redor, porém só havia essa barata. Aos poucos, o coveiro foi separando os ossos dele. Essa tarefa parecia muito fácil, visto que ao puxar o esqueleto, as partes já estavam se separando. 
Estranhei o fato de não haver nenhum cheiro ruim. O ar permaneceu intacto. Somente minhas emoções foram violadas naquele momento pela tristeza. 
Todos os ossos couberam em um pequeno saco que foi fechado com uma etiqueta de papel para ser levada à urna geral. Descobri que a urna geral do cemitério estava lotada e ninguém ficava mais lá. Aquele saco com os restos mortais de meu pai foram para uma sala. Meu pai até estava em uma pacote bonitinho, mas os demais estavam em um saco preto de lixo. Imagino que depois vão fazer o mesmo com os ossos de meu pai. Havia bastante espaço na sala, até mesmo pelo fato de que os sacos ficavam um por cima dos outros. 
Minha mãe interrogou se ele ficaria ali para sempre. Disseram que depois de um tempo, todos aqueles ossos são incinerados, ou seja, não haverá nenhum material físico e nenhum local concreto para eu rezar pelo meu falecido pai. Mas tudo bem, continuarei rezando por ele em qualquer local onde sua lembrança reviver em meu coração. 
Ao chegar em casa, não entendi uma estranha sensação. Eu me sentia sujo, muito sujo. Fui direto tirar minhas roupas e me esfreguei com força. Havia uma necessidade muito forte de limpeza. O engraçado é que os ossos não federam e não me pareceram sujos, mas eu me via como uma criatura imunda. 
Coloquei minhas roupas para lavar e fui limpar os meus calçados. Até eles me pareciam emporcalhados. Essa foi minha triste experiência nessa data.

2 comentários:

  1. Uma experiência que poucos conseguem suportar com lucidez. Veja que a ideia da morte nos foi,ao longo de nossa vida,como algo imundo (por isso nos sentimos tao sujos precisando de desinfectacao). Mas quando conseguimos ressignificar a finitude de nossa existência, olhamos além dos ossos secos ou de uma matéria em decomposição. A separação que é física, não interrompe nosso amor por aqueles que já estão em outra dimensão. À medida que,retomamos nossas boas lembranças alimentamos nossa alma e tornamos vivos àqueles que já vivem pela morte. Pois se não os esquecemos,eles permanecem vivos em nós.

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  2. Muito lindo seu pensamento. Obrigado pela presença!!!

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